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Blog de sergioguedes.ap
 


GENTE É PRA BRILHAR, NÃO PRA MORRER DE FOME”

 (“Gente”, Caetano Veloso)

 



Escrito por sergioguedes.ap às 08h10
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MAIS VITOR RAMIL

Loucos de Cara

Vitor Ramil

Vem anda comigo pelo planeta
Vamos sumir! vem nada nos prende ombro no ombro vamos sumir!
Não importa
Que deus jogue pesadas moedas do céu
Vire sacolas de lixo pelo caminho
Se na praça em moscou
Lênin caminha e procura por ti
Sob o luar do oriente
Fica na tua
Não importam vitórias
Grandes derrotas, bilhões de fuzis
Aço e perfume dos mísseis nos teus sapatos
Os chineses e os negros
Lotam navios e decoram canções
Fumam haxixe na esquina
Fica na tua
Vem anda comigo pelo planeta
Vamos sumir! vem nada nos prende ombro no ombro vamos sumir!
Não importa
Que lennon arme no inferno a polícia civil
Mostre as orelhas de burro aos peruanos
Garibaldi delira
Puxa no campo um provável navio
Grita no mar farroupilha
Fica na tua
Não importa
Que os vikings queimem as fábricas do cone sul
Virem barris de bebidas no rio da prata
M'boitatá nos espera
Na encruzilhada da noite sem luz
Com sua fome encantada
Fica na tua
Poetas loucos de cara
Soldados loucos de cara
Malditos loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Parceiros loucos de cara
Ciganos loucos de cara
Inquietos loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Vem anda comigo pelo planeta
Vamos sumir! vem nada nos prende ombro no ombro vamos sumir!
Se um dia qualquer
Tudo pulsar num imenso vazio
Coisas saindo do nada
Indo pro nada
Se mais nada existir
Mesmo o que sempre chamamos real
E isso pra ti for tão claro
Que nem percebas
Se um dia qualquer
Ter lucidez for o mesmo que andar
E não notares que andas
O tempo inteiro
É sinal que valeu!
Pega carona no carro que vem
Se ele é azul, não importa
Fica na tua
Videntes loucos de cara
Descrentes loucos de cara
Pirados loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Latinos, deuses, gênios, santos, podres
Ateus, imundos e limpos
Moleques loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Gigantes, tolos, monges, monstros, sábios
Bardos, anjos rudes, cheios do saco
Fantasmas loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Vem anda comigo pelo planeta
Vamos sumir! vem nada nos prende ombro no ombro vamos sumir!




Escrito por sergioguedes.ap às 20h33
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VITOR RAMIL

 

                Vitor Ramil é um artista que não freqüenta a grande mídia, como muitos, ele faz um trabalho que não se preocupa com esquemas comerciais, e sim com a arte por ela mesma. Abro espaço no meu blog porque acho importante que cada vez mais as pessoas saibam que além de toda essa babaquice que toca nas rádios, ainda existem grandes músicos no Brasil. Aliás, além de músico, Vitor Ramil também é escritor. Transcrevo abaixo um texto seu em que ele fala um pouco de si mesmo e também dos vários brasis existentes em nosso país. O texto é um pouco longo mas vale a pena lê-lo. P.S. Vitor Ramil é irmão de Kleiton e Kledir.    

A Estética do Frio

 

Sinto-me um pouco discípulo daqueles para quem,
na descrição de Paul Valéry, o tempo não conta;
aqueles que se dedicam a uma espécie de ética da forma,
que leva ao trabalho infinito.

 

Eu me chamo Vitor Ramil. Sou brasileiro, compositor, cantor e escritor. Venho do estado do Rio Grande do Sul, capital Porto Alegre, extremo sul do Brasil, fronteira com Uruguai e Argentina, região de clima temperado desse imenso país mundialmente conhecido como tropical.

A área territorial do Rio Grande do Sul equivale, aproximadamente, à da Itália. Sua gente, os rio-grandenses, também conhecidos como gaúchos, aparentam sentir-se os mais diferentes em um país feito de diferenças. Isso deve-se, em grande parte, à sua condição de habitantes de uma importante zona de fronteira, com características únicas, a qual formaram e pela qual foram formados (o estado possui duas fronteiras com países estrangeiros de língua espanhola); à forte presença do imigrante europeu, principalmente italiano e alemão, nesse processo de formação; ao clima de estações bem definidas e ao seu passado de guerras e revoluções, como os embates durante três séculos entre os impérios coloniais de Portugal e Espanha por aquilo que é hoje nosso território e a chamada Revolução Farroupilha (1835–1845), que chegou a separar o estado do resto do Brasil, proclamando a República Rio-Grandense.

Se no passado o estado antecipou-se em ser uma república durante a vigência do regime monarquista no país, no cenário político nacional desta virada de século, marcado pela desigualdade social, a capital Porto Alegre tornou-se referência internacional como modelo bem sucedido de política com participação popular.

Vou falar o mais brevemente possível sobre a minha experiência como artista no Rio Grande do Sul e no Brasil. É importante começar dizendo que essa conferência é uma exposição de minhas reflexões acerca de minha própria produção artística e seu contexto cultural e social. Do tema, a estética do frio, não se pretende, em hipótese alguma, uma formulação normativa. As idéias aqui expostas são fruto da minha intuição e do que minha experiência reconhece como senso comum. A extensão do assunto e o pouco tempo para expô-lo não me permitem desenvolver suficientemente alguns pontos. Mas convido a todos para um debate após esta exposição, para que possamos retomar o que for de seu interesse e compartilhar novas reflexões.



Escrito por sergioguedes.ap às 20h27
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Nasci no interior, mais ao Sul do que Porto Alegre, na cidade de Pelotas, que em alguns dos meus textos e canções aparece com seu nome em anagrama: Satolep. Minha vida profissional começou e se desenvolveu em Porto Alegre. No entanto gravei quase todos os meus discos no Rio de Janeiro, centro do país e do mercado da música popular brasileira. A exceção é o meu mais recente CD, Tambong, gravado em Buenos Aires, Argentina.*

Aos dezoito anos gravei meu primeiro disco, Estrela, Estrela; aos vinte e quatro troquei Porto Alegre pelo Rio de Janeiro, onde morei por cinco anos. Vivi esse período no bairro de Copacabana, praia símbolo do verão brasileiro, onde, apesar do clima de mudanças discretas entre as estações e do predomínio do calor, mantive sempre alguns hábitos do frio, como o chimarrão, um tradicional chá quente de erva-mate.

Em Copacabana, num dia muito quente do mês de junho (justamente quando começa o inverno no Brasil), eu tomava meu chimarrão e assistia, em um jornal na televisão, à transmissão de cenas de um carnaval fora de época, no Nordeste, região em que faz calor o ano inteiro (o carnaval brasileiro é uma festa de rua que acontece em todo o país durante o verão). As imagens mostravam um caminhão de som que reunia à sua volta milhares de pessoas seminuas a dançar, cantar e suar sob sol forte. O âncora do jornal, falando para todo o país de um estúdio localizado ali no Rio de Janeiro, descrevia a cena com um tom de absoluta normalidade, como se fosse natural que aquilo acontecesse em junho, como se o fato fizesse parte do dia-a-dia de todo brasileiro. Embora eu estivesse igualmente seminu e suando por causa do calor, não podia me imaginar atrás daquele caminhão como aquela gente, não me sentia motivado pelo espírito daquela festa.

A seguir, o mesmo telejornal mostrou a chegada do frio no Sul, antecipando um inverno rigoroso. Vi o Rio Grande do Sul: campos cobertos de geada na luz branca da manhã, crianças escrevendo com o dedo no gelo depositado nos vidros dos carros, homens de poncho (um grosso agasalho de lã) andando de bicicleta, águas congeladas, a expectativa de neve na serra, um chimarrão fumegando tal qual o meu. Seminu e suando, reconheci imediatamente o lugar como meu, e desejei estar não em Copacabana, mas num avião rumo a Porto Alegre. O âncora, por sua vez, adotara um tom de quase incredulidade, descrevendo aquelas imagens do frio como se retratassem outro país (chegou a defini-las como de “clima europeu”).



Escrito por sergioguedes.ap às 20h26
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Aquilo tudo causou em mim um forte estranhamento. Eu me senti isolado, distante. Não do Rio Grande do Sul, que estava mesmo muito longe dali, mas distante de Copacabana, do Rio de Janeiro, do centro do país. Pela primeira vez eu me sentia um estranho, um estrangeiro em meu próprio território nacional; diferente, separado do Brasil. Eu era a comprovação de algo do qual não me julgara, até então, um exemplo: o sentimento de não ser ou não querer ser brasileiro tantas vezes manifesto pelos rio-grandenses, seja em situações triviais do cotidiano, seja na organização de movimentos separatistas.

A sério ou de brincadeira, sempre se falou muito no Rio Grande do Sul em sermos um “país à parte” (nossa bandeira atual é a mesma de quando os revolucionários farroupilhas separaram o estado do resto do país. Vale no entanto dizer que, apesar da imagem que ficou para a história, os farroupilhas não eram separatistas no início de seu movimento). Por ter sempre acreditado que entre falar e sentir havia uma distância enorme, a realidade do meu sentimento era agora perturbadora. Significava que eu não precisava sair à rua pregando o separatismo: eu já estava, de fato, separado do Brasil.

Naquela época, passagem dos anos 80 para os 90, esse tema do “país à parte” estava mais uma vez em voga, e não se poderia encontrar em outra região do país, como ainda hoje não se pode, um povo mais ocupado em questionar a própria identidade que o riograndense. Com isso, o gauchismo e os movimentos separatistas estavam em alta, estes últimos a reboque dos freqüentes protestos de políticos contra o governo federal pela precária situação econômica do estado, manifestações que, muitas vezes, traziam à tona a retórica dos revolucionários do século XIX.

Abro parêntese para comentar o que chamei de gauchismo.

É difícil que as regiões se conheçam bem em um país tão grande como o Brasil. Acabam sempre lançando mão de estereótipos e fixando uma imagem imprecisa umas das outras. A mídia nacional, situada no centro geográfico, enfrenta a mesma dificuldade e, ao tentar dar conta da diversidade, adota os estereótipos regionais, o que termina por reforçá-los. Neste processo, distorções muitas vezes se estabelecem como definições de cores locais.

A palavra gaúcho é, hoje em dia, um gentílico que designa os habitantes do Rio Grande do Sul, e o estereótipo do gaúcho é um dos mais difundidos nacionalmente, se não o mais difundido: misto de homem do campo e herói, que o escritor brasileiro Euclides da Cunha, em seu clássico Os Sertões, definiu como essa existência-quase-romanesca. Popularmente, é visto como valente, machista, bravateiro; um tipo que está sempre vestido a caráter e às voltas com o cavalo, o churrasco e o chimarrão.

Originalmente, gaúcho é o rio-grandense do interior, que trabalha a cavalo em fazendas de criação de gado, o mesmo personagem que, no passado, participou das guerras e revoluções em que o estado se envolveu. É um tipo comum aos vizinhos Uruguai e Argentina, com a diferença de que nesses países gaucho (gaúcho) é simplesmente o homem do campo, nunca um gentílico que designe os habitantes dos centros urbanos. É significativo que, no variado leque de tipos regionais brasileiros, esse mesmo gaúcho tenha se estabelecido como marca de representação de todos os rio-grandenses, justamente ele, que nos vincula aos países vizinhos, que nos “estrangeiriza”.

Já o gauchismo ou tradicionalismo é um amplo movimento organizado que, transitando entre a realidade da vida campeira e seu estereótipo, procura difundir em toda parte o que considera a cultura do gaúcho. O empenho de grupos tradicionalistas em legitimar esse personagem e seu mundo como nossa verdadeira identidade, e a vinculação histórica do gaúcho aos heróis da Guerra dos Farrapos contribuem de forma decisiva para que o estereótipo seja largamente assumido pelos rio-grandenses como imagem de representação. No estado e no país quase já não se fala em rio-grandense, mas em gaúcho.

À parte sua real significação, o gaúcho é um símbolo que, em especial nos momentos em que a auto-afirmação se faz necessária, está sempre à mão, assim como o sentimento separatista.

Falando em identidade e separação, fecho parêntese e volto a Copacabana.



Escrito por sergioguedes.ap às 20h25
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Um carnaval acontecer e ser noticiado com tanta naturalidade em pleno junho me levou a pensar nas regiões do “calor” brasileiro, sua gente e seus costumes, e a conectá-las com o cotidiano do Rio de Janeiro. O espírito da festa podia não repercutir em mim, mas certamente repercutia na maior parte da minha vizinhança carioca e Brasil acima. Apesar de toda a diversidade, eu via no Brasil tropical (generalizo assim para me referir ao Brasil excetuando sua porção subtropical, a Região Sul) linguagens, gostos e comportamentos comuns como sua face mais visível. Sua arte, sua expressão popular trazia sempre como pano de fundo o apelo irresistível da rua, onde o múltiplo, o variado, a mistura que a rua evoca ganhavam forma, sendo a música e o ritmo invariavelmente um convite à festa, à dança e à alegria de uma gente expansiva e agregadora. Havia, de fato, uma estética que se adequava perfeitamente ao clichê do Brasil tropical. E se não se poderia afirmar que ela unificava os brasileiros, uma coisa era certa: nós, do extremo sul, éramos os que menos contribuíam para que ela fosse o que era. O que correspondia tão bem à idéia corrente de brasilidade, falava de nós, mas dizia muito pouco, nunca o fundamental a nosso respeito. Ficava claro porque nos sentíamos os mais diferentes em um país feito de diferenças.

Se minha identidade, de repente, era uma incerteza, por outro lado, ao presenciar as imagens do frio serem transmitidas como algo verdadeiramente estranho àquele contexto tropical (atenção: o telejornal era transmitido para todo o país) uma obviedade se impunha como certeza significativa: o frio é um grande diferencial entre nós e os “brasileiros”. E o tamanho da diferença que ele representa vai além do fato de que em nenhum lugar do Brasil sente-se tanto frio como no Sul. Por ser emblema de um clima de estações bem definidas – e de nossas próprias, íntimas estações; por determinar nossa cultura, nossos hábitos, ou movimentar nossa economia; por estar identificado com a nossa paisagem; por ambientar tanto o gaúcho existência-quase-romanesca, como também o rio-grandense e tudo o que não lhe é estranho; por isso tudo é que o frio, independente de não ser exclusivamente nosso, nos distingue das outras regiões do Brasil. O frio, fenômeno natural sempre presente na pauta da mídia nacional e, ao mesmo tempo, metáfora capaz de falar de nós de forma abrangente e definidora, simboliza o Rio Grande do Sul e é simbolizado por ele.

Precisamos de uma estética do frio, pensei. Havia uma estética que parecia mesmo unificar os brasileiros, uma estética para a qual nós, do extremo sul, contribuíamos minimamente; havia uma idéia corrente de brasilidade que dizia muito pouco, nunca o fundamental de nós. Sentíamo-nos os mais diferentes em um país feito de diferenças. Mas como éramos? De que forma nos expressávamos mais completa e verdadeiramente? O escritor argentino Jorge Luís Borges, que está enterrado aqui em Genebra, escreveu: a arte deve ser como um espelho que nos revela a própria face. Apesar de nossas contrapartidas frias, ainda não fôramos capazes de engendrar uma estética do frio que revelasse a nossa própria face.

 



Escrito por sergioguedes.ap às 20h24
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TUDO COMO DANTES...

 

Leiam uma parte do resumo do romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto, publicado em 1909 e reparem como a narração é extremamente atual. Parece que Lima Barreto narra fatos que aconteceram hoje. Chamo a atenção para o momento em que ele descreve a sessão na Câmara dos deputados.

 

“Recordações do Escrivão Isaías Caminha narra a história de um jovem provinciano que vai para o Rio de Janeiro, pensando em fazer a vida e virar doutor. Pobre, mas inteligente e cheio de idealismo, convence, contra a vontade da mãe, o tio Valentim a recomenda-lo, por intervenção de um coronel amigo da família, a um deputado influente no Rio de Janeiro, o doutor Castro.

     Isaías, na ingenuidade dos doze anos, tinha plena convicção de seu êxito. Conforme dizia, chegava mesmo “a ouvir uma tentadora sibila falar-me, a toda hora e a todo instante, na minha glória futura”.

     Seu grande sonho de ser doutor, segundo ele, “resgataria o pecado original do meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente, cruciante e onímodo de minha cor”.

     O primeiro contato com a cidade, porém, se encarregaria de ir dissipando aos poucos as primeiras ilusões. O encontro com as primeiras pessoas no novo ambiente põe diante dele um mundo de aparências e de interesses escusos. A visão afetada e arrogante do padeiro endinheirado Laje da Silva, o fingimento insuportável de Raul Gusmão, a imagem deprimente de um senador da República em atitudes obscenas em pleno bonde, tudo isso vinha deprimi-lo num mundo de expectativas mecânicas, de oportunismos e de indiferença.

     A decepção aumenta diante do triste espetáculo de uma sessão do plenário da Câmara, para onde fora à procura do doutor Castro, ao qual havia sido recomendado. O que para ele se afigurou sempre um lugar sagrado da soberania popular transforma-se num instante numa experiência vergonhosa, ante a visão dos deputados dormindo, conversando ou dando as costas ao colega que ocupava a tribuna. (...)”

 

     E então, é ou não é impressionante? Este texto foi escrito há quase cem anos, no entanto, ele descreve situações que infelizmente, mesmo depois de tanto tempo, ainda corroem a nossa sociedade. Cabe a cada um de nós, com suas convicções, respeitando as opiniões em contrário, lutarmos para começarmos a reverter esse quadro.       

         



Escrito por sergioguedes.ap às 21h15
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     PESQUISAS: CADÊ A COERÊNCIA?   

 

Às vezes é impossível manter uma posição de imparcialidade diante de certos fatos. É o que está acontecendo por exemplo em relação à divulgação das pesquisas eleitorais. Quando saiu a primeira pesquisa, cujo órgão que a realizou é ligado ao PSB, eu não vi ninguém ligado ao candidato do PSB reclamar, pelo contrário, eles fizeram questão de divulgar em jornais, rádios, internet etc. Houve uma certa euforia com o resultado que apontava a vitória do candidato Capiberibe no 1º turno. Aí as pesquisas eram sérias (para eles). Em seguida, as pesquisas começaram a apontar o inverso, ou seja, a vitória de Waldez. O que aconteceu então? Adivinhem... Subitamente, o pessoal do PSB começou a desqualificar as pesquisas, dizendo que elas são suspeitas, que são encomendadas, que não são sérias. Então, devemos supor que inclusive a pesquisa deles é uma farsa. Por que isto não é dito por eles? É simples, em política, só se divulga o que é bom para si. O que me deixa indignado não são críticas feitas a esta ou àquela situação. O que me deixa indignado é a incoerência, é a desfaçatez de algumas pessoas que pensam que o povo não tem memória ou que não tem nem mesmo cérebro.

     Moral: se você tem rabo de palha, não queira tocar fogo no rabo dos outros, porque você vai se queimar feio.               



Escrito por sergioguedes.ap às 10h50
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PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE GERALDO VANDRÉ

 

Quando eu tinha 13 anos, mais ou menos, um de meus irmãos comprou um vinil de um cantor até então desconhecido para mim: Geraldo Vandré. Lembro que gostei logo de cara da música “Caminhando (pra não dizer que não falei de flores)”, mas aos poucos fui descobrindo a beleza de cada uma das canções do disco. Aprendi a cantar quase todas. Lembro também que me fascinavam as histórias contadas a respeito deste ícone das músicas de protesto. Diziam que após cantar “Caminhando” no Festival Internacional da Canção de 1968, o cantor teria sido algemado e levado para a prisão onde teria sido torturado ao extremo. Depois desse episódio, ele teria ficado meio louco e teria sido obrigado a deixar o país. Cresci acreditando piamente nestes relatos. E cada vez que ouvia a apresentação de “Caminhando” ficava mais impressionado com a coragem de Vandré: em pleno regime militar soltar um grito de protesto contra toda a situação. O tempo passa e eis que o mito começa a ser desfeito através do relato de diversas personalidades que viveram aquela época, o próprio Vandré em uma de suas poucas entrevistas afirma que nunca sofreu tortura alguma e que deixou o país por vontade própria. Veja alguns trechos de uma entrevista concedida pelo cantor a CliqueMusic em 28/07/2000:

 

CliqueMusic – O sr. vive recluso há muitos anos. Não dá entrevistas, não faz shows e não grava discos. Como é a sua rotina de vida? Vive do que hoje em dia?
Geraldo Vandré –
Sou advogado, o único da minha região. Advogado, porém inútil (risos). Tô sempre muito ocupado, muito mais do que muita gente da minha idade. Quando estou em casa, com o tempo livre, componho, mas não tenho pressa para gravar discos.
                  (...)
CliqueMusic – O Quinteto Violado gravou em 1997 um disco só de canções de sua autoria. Chegou a ouvi-lo?
Geraldo Vandré –
Ouvi. Tem uma série de coisas equivocadas neste disco. As pessoas fazem tudo com muito pressa.
                  (...)
CliqueMusic – O sr. ficou marcado como um compositor de protesto. Alguma dessas canções novas têm essa característica?
Geraldo Vandré –
Nunca fui um compositor de protesto. Sou um músico de formação erudita. Ouço Villa-Lobos, Wagner...
CliqueMusic – Mas muitas das suas canções são sim de protesto, Caminhando, Canção da Despedida, e estão longe de ter um perfil erudito.
Geraldo Vandré –
Não quero falar do passado. Ouça essa minha canção, que eu acabei de compor, ainda não tem título (começa a cantarolar um tango em portunhol): "Hoje cantor de mi tango/ Um tango do meu viver/ La Pampa, larga e serena/ Nela, vou renascer/ E há o outro lado, Argentina/ Que parte de mi querer".
CliqueMusic –O sr. pode mostrar alguma canção inédita em português?
Geraldo Vandré –
Eu fiz essa música para a FAB (retira da bolsa um cartão com a letra de Fabiana, com um brasão da Força Aérea desenhado no verso).
CliqueMusic – Não é estranho alguém que protestou contra a ditadura militar hoje compor músicas em homenagem à Força Aérea?
Geraldo Vandré –
Vocês não entendem, nunca entenderam (irritado, bate com força a colher com coalhada no prato). A minha relação com os militares não foi política e nunca vai ser. Caminhando era um aviso: "Olha gente, desse jeito não dá mais".
CliqueMusic – Muita gente tem convicção de que o sr. foi torturado na época do AI-5, por causa dos polêmicos versos de Caminhando ("Há soldados armados, amados ou não/ Quase todos perdidos de armas na mão/ Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição/ De morrer pela pátria e viver sem razão ).
Geraldo Vandré –
Nunca fui preso. Eles (militares) nunca encostaram um dedo em mim. Aproximei-me da FAB porque voar sempre foi uma paixão de criança. Veja o início da letra de Fabiana, diz assim: "Desde os tempos distantes de criança/ Numa força, sem par, do pensamento..." Sou fascinado pela mecânica dos aviões e dos automóveis desde criança. Tenho dois carros em casa, um Fiat Palio e um Fusca. Hoje prefiro mexer num motor de carro do que compor uma música.
CliqueMusic – O sr. esteve visitando o Wilson Simonal no hospital um pouco antes de sua morte (em junho deste ano). Não te incomodou o fato dele carregar por muito tempo a fama de delator na época da ditadura?
Geraldo Vandré –
Isso foi uma grande injustiça. Não fizeram essa acusação porque ele era preto e rico. Senão, tinham feito o mesmo com o Jair (Rodrigues). Era porque ele era um cara petulante, tinha aquele jeitão, mas nunca dedurou ninguém. Tenho certeza disso.
                 (...)
CliqueMusic – O Caetano Veloso contou em seu livro, Verdade Tropical, que o sr. brigou com ele e com a Gal Gosta por causa da música Baby. O que acha do movimento tropicalista?
Geraldo Vandré –
Achava Baby uma m. e hoje acho mais m. ainda (risos). O Rogério Duprat (maestro e arranjador da Tropicália) deve ter ficado surdo de tanto ouvir a barulheira dos tropicalistas.”


         Seja qual for a verdade dos fatos, nada tira o talento de Geraldo Vandré. Porém, as pessoas que o conhecem apenas como compositor e intérprete de “Pra não dizer que não falei de flores” não podem deixar de se aprofundar no seu trabalho. Músicas como “Disparada”(um clássico da MPB), “Quem quiser encontrar o amor”, “Porta-estandarte”, “Canção Nordestina”, entre outras, são legítimas representantes de um tempo em que a nossa música vivia momentos de glória em termos de genialidade!  

 



Escrito por sergioguedes.ap às 23h31
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